Toda doença humana é psicossomática, já que incide num ser que tem corpo e mente inseparáveis anatômica e funcionalmente. Por isso a expressão doença psicossomática não é muito adequada, pois nela está subentendido que existem outras doenças que não são psicossomáticas, ou seja, com separação entre psique e soma. Corpo e mente são indivisíveis, e dentro dessa ótica todas as doenças são psicossomáticas, porque atingem tanto a psique como o soma. Entretanto, na visão biologicista da medicina atual e na estrutura curricular da maioria das escolas médicas, observa-se uma fragmentação do ser humano, que é estudado por partes e sistemas, e não como um todo. Em consequência, nesse quadro que se desenha, aprende-se a tratar de doenças, e não de pessoas doentes, que têm uma existência biológica, psicológica e social.
Este artigo visa destacar a importância dos mecanismos emocionais envolvidos na gênese das doenças e na relação médico/paciente, valorizando a psique e tentando compreender de forma global o que se passa com o paciente para oferecer um tratamento mais eficaz.
Essa visão mais holística do paciente torna-se fundamental na adolescência, por ser esse um período de muitas e grandes transformações, com a vivência de novos conflitos e a reativação de antigos (7). Na adolescência, em especial, é indispensável a visão integral do ser humano.
É necessário enfatizar que a doença tem um caráter social e cultural, com base não só nas condições sociais e econômicas da população, mas nas relações sociais de produção(5). O adoecer sofre também profundas influências de questões socioculturais. Determinados sintomas em uma classe social podem não ser considerados como tais em outra. A percepção das sensações é desigual nas diversas classes sociais. Por exemplo, as sensações que se seguem a uma refeição farta podem representar malestar, peso no estômago para as classes superiores, mas, para as classes populares, podem significar euforia pós-prandial, estar forrado, satisfeito(2).
A interpretação que os indivíduos dão à sua doença e a seus sintomas difere conforme conceitos morais, culturais e religiosos. Essas diferenças culturais delimitam formas de percepção e interpretação dos conflitos, provocando somatização em uns e verbalização em outros. Os sintomas das doenças têm representações diferentes para cada pessoa. A relação do indivíduo com seu próprio corpo determina sua forma de adoecer e os cuidados consigo mesmo.
Ao se atender um paciente, deve-se compreender o possível significado do sintoma exposto. A doença não acontece por acaso nem é um fato isolado na vida do indivíduo. Ela ocorre no momento em que o organismo está vulnerável, em função da história pessoal, da bagagem genética, da situação social. O organismo sofre agressões dos meios interno e externo que perturbam a sua homeostase, gerando então a doença.
TEORIAS PSICOSSOMÁTICAS
Diversas teorias tentam explicar a relação existente entre as manifestações biológicas e psicológicas. Didaticamente podemos dizer que duas correntes se destacam. A primeira delas se baseia no efeito que as emoções provocam no organismo através do sistema nervoso e seus neurotransmissores (psicofisiologia). A segunda corrente fundamenta- se na teoria psicanalítica, que tenta esclarecer alguns mecanismos psicológicos envolvidos na gênese das doenças.
Em relação à psicofisiologia, a literatura médica relata várias pesquisas. Alguns trabalhos clássicos, como o de Cannon(6), comprovam as modificações fisiológicas nos estados de fome, raiva e medo que acontecem por influência do sistema nervoso vegetativo. Outra teoria, a de McLean(10), descreve como unidade funcional básica o arco reflexo, que capta os estímulos do mundo exterior pela via aferente ou sensorial, assim como do mundo interior, e através do centro nervoso, que se distribui ao longo do neuroeixo, alcança a via eferente ou efetora, a qual transmite os impulsos para vísceras, aparelho locomotor e outras regiões. A esse conjunto de estruturas deu-se o nome de sistema límbico, que compreende o córtex cerebral (lobo temporal e zonas inferiores do lobo frontal), a área septal, o complexo amigdalóide, o hipocampo e o hipotálamo. O sistema límbico, ao receber os estímulos internos ou externos, transforma-os numa atividade somática ou física (um grito, uma expressão facial, um movimento súbito do corpo, uma alteração circulatória, digestiva, etc.). A percepção do sistema límbico não é intelectual. É o substrato anatômico que estabelece a ligação entre o afeto, o pensamento e o sistema visceral(9).
Na teoria do desenvolvimento, segundo a psicanálise, o indivíduo no primeiro ano de vida só reage aos estímulos externos através do sistema nervoso vegetativo. Ele ainda não tem capacidade de verbalizar ou de se expressar por gestos, pois não dispõe de coordenação motora para isso. Portanto, nessa fase, a comunicação é pré-verbal e as funções vegetativas são de grande ajuda na compreensão dos processos psicossomáticos. A possibilidade de somatizar é um mecanismo de defesa fixado na fase oral do desenvolvimento. Sempre que a relação mãe/filho não estiver boa, o bebê reagirá fisicamente(8). Essa fase inicial do desenvolvimento do ser humano, em que a relação mãe/filho é fundamental, deixa marcas para o resto da vida. Quando o indivíduo enfrentar momentos de crise, poderá reagir reativando processos psicossomáticos com os quais resolverá seus problemas passados. Spitz(12), em seu trabalho de observação de bebês no primeiro ano de vida, chamou a atenção para as reações psicossomáticas dos bebês que não recebiam os cuidados adequados nesta fase. O eczema infantil aparece como reação a um tratamento materno hostil e ansioso, sendo a depressão anaclítica e o marasmo consequências da privação materna parcial ou total. O autor conclui que os distúrbios na formação das primeiras relações objetais do bebê resultam provavelmente em grave prejuízo às relações futuras do ser na adolescência e idade adulta.
Winnicott(14), com sua larga experiência clínica e pesquisas científicas, ressalta a importância dos primeiros cuidados do bebê em sua vida futura. Ele ressalta que um desenvolvimento saudável da psique humana favorece a evolução física e que dificuldades emocionais podem gerar situações somáticas graves. Segundo a teoria psicossomática de Pierre Marty(3), o indivíduo reage a traumas conforme sua organização evolutiva mental. Cada pessoa tem uma forma peculiar de reagir e de somatizar os traumas, dependendo de sua história de vida e da bagagem genética. O ser humano é um sistema complexo de interações que pode estar em equilíbrio ou não. Um trauma externo pode ser mais desordenador para uns do que para outros, dependendo da organização interna de cada um. Quando uma pessoa sofre um trauma, há um movimento de desorganização interna que atinge primeiro as estruturas mais evoluídas, recentemente adquiridas durante o desenvolvimento. Conhecendo-se a economia psicossomática de uma pessoa, podemos prever seu modo de reação mais provável diante dos traumas e como se organiza posteriormente.
ABORDAGEM PSICOSSOMÁTICA
(1986), em levantamento com 630 adolescentes de consultório particular sobre os motivos das consultas, constatou que as queixas sociopsicossomáticas foram as mais numerosas, representando 32,69% do total. A frequência em serviços de saúde de pacientes com sintomas denominados psicossomáticos é grande. Segundo Smith(11), a incidência de problemas psicológicos entre adolescentes americanos chega a aproximadamente 25% (ansiedade, depressão, desordens alimentares e somatizações). No Brasil, Crespin
Entretanto, mesmo os sintomas que não são denominados psicossomáticos têm um conteúdo psicológico latente que quase nunca é exteriorizado e cuja compreensão é desejável para a melhora da doença. Na abordagem psicossomática buscase dar ênfase não só aos sintomas que levaram o paciente ao serviço de saúde como à compreensão do seu conteúdo latente.
Quando se identifica um componente psicológico importante que agrava a doença, o profissional de saúde encaminha o paciente a um psiquiatra ou psicólogo. Freqüentemente, entretanto, a pessoa não aceita ou finge aceitar tal orientação e não procura o psicoterapeuta. Quando o profissional de saúde dá ouvidos às questões emocionais, identifica algumas causas e permite ao paciente compreender que há sentimentos vinculados a seus sintomas, essa atitude torna mais provável a aceitação da necessidade de se submeter à psicoterapia. Esse comportamento do profissional de saúde já caracteriza a psicoterapêutica. Balint(1), em seu livro O Médico, Seu Paciente e a Doença, analisa a relação médico/paciente e constata que o remédio mais usado em medicina é o próprio médico, o qual também precisa ser conhecido em sua posologia, reações colaterais e toxicidade.
A anamnese da consulta clínica com abordagem psicossomática objetiva conhecer o máximo a respeito do paciente, da sua doença e também do ambiente em que vive. Às vezes o paciente faz relatos que, aparentemente, não têm relação com a doença, porém mais tarde se revelam extremamente importantes na compreensão de seu quadro clínico. Alguns dados que normalmente não são privilegiados na anamnese clínica tradicional devem ser valorizados na abordagem psicossomática, como os listados a seguir:
Este artigo visa destacar a importância dos mecanismos emocionais envolvidos na gênese das doenças e na relação médico/paciente, valorizando a psique e tentando compreender de forma global o que se passa com o paciente para oferecer um tratamento mais eficaz.
Essa visão mais holística do paciente torna-se fundamental na adolescência, por ser esse um período de muitas e grandes transformações, com a vivência de novos conflitos e a reativação de antigos (7). Na adolescência, em especial, é indispensável a visão integral do ser humano.
É necessário enfatizar que a doença tem um caráter social e cultural, com base não só nas condições sociais e econômicas da população, mas nas relações sociais de produção(5). O adoecer sofre também profundas influências de questões socioculturais. Determinados sintomas em uma classe social podem não ser considerados como tais em outra. A percepção das sensações é desigual nas diversas classes sociais. Por exemplo, as sensações que se seguem a uma refeição farta podem representar malestar, peso no estômago para as classes superiores, mas, para as classes populares, podem significar euforia pós-prandial, estar forrado, satisfeito(2).
A interpretação que os indivíduos dão à sua doença e a seus sintomas difere conforme conceitos morais, culturais e religiosos. Essas diferenças culturais delimitam formas de percepção e interpretação dos conflitos, provocando somatização em uns e verbalização em outros. Os sintomas das doenças têm representações diferentes para cada pessoa. A relação do indivíduo com seu próprio corpo determina sua forma de adoecer e os cuidados consigo mesmo.
Ao se atender um paciente, deve-se compreender o possível significado do sintoma exposto. A doença não acontece por acaso nem é um fato isolado na vida do indivíduo. Ela ocorre no momento em que o organismo está vulnerável, em função da história pessoal, da bagagem genética, da situação social. O organismo sofre agressões dos meios interno e externo que perturbam a sua homeostase, gerando então a doença.
TEORIAS PSICOSSOMÁTICAS
Diversas teorias tentam explicar a relação existente entre as manifestações biológicas e psicológicas. Didaticamente podemos dizer que duas correntes se destacam. A primeira delas se baseia no efeito que as emoções provocam no organismo através do sistema nervoso e seus neurotransmissores (psicofisiologia). A segunda corrente fundamenta- se na teoria psicanalítica, que tenta esclarecer alguns mecanismos psicológicos envolvidos na gênese das doenças.
Em relação à psicofisiologia, a literatura médica relata várias pesquisas. Alguns trabalhos clássicos, como o de Cannon(6), comprovam as modificações fisiológicas nos estados de fome, raiva e medo que acontecem por influência do sistema nervoso vegetativo. Outra teoria, a de McLean(10), descreve como unidade funcional básica o arco reflexo, que capta os estímulos do mundo exterior pela via aferente ou sensorial, assim como do mundo interior, e através do centro nervoso, que se distribui ao longo do neuroeixo, alcança a via eferente ou efetora, a qual transmite os impulsos para vísceras, aparelho locomotor e outras regiões. A esse conjunto de estruturas deu-se o nome de sistema límbico, que compreende o córtex cerebral (lobo temporal e zonas inferiores do lobo frontal), a área septal, o complexo amigdalóide, o hipocampo e o hipotálamo. O sistema límbico, ao receber os estímulos internos ou externos, transforma-os numa atividade somática ou física (um grito, uma expressão facial, um movimento súbito do corpo, uma alteração circulatória, digestiva, etc.). A percepção do sistema límbico não é intelectual. É o substrato anatômico que estabelece a ligação entre o afeto, o pensamento e o sistema visceral(9).
Na teoria do desenvolvimento, segundo a psicanálise, o indivíduo no primeiro ano de vida só reage aos estímulos externos através do sistema nervoso vegetativo. Ele ainda não tem capacidade de verbalizar ou de se expressar por gestos, pois não dispõe de coordenação motora para isso. Portanto, nessa fase, a comunicação é pré-verbal e as funções vegetativas são de grande ajuda na compreensão dos processos psicossomáticos. A possibilidade de somatizar é um mecanismo de defesa fixado na fase oral do desenvolvimento. Sempre que a relação mãe/filho não estiver boa, o bebê reagirá fisicamente(8). Essa fase inicial do desenvolvimento do ser humano, em que a relação mãe/filho é fundamental, deixa marcas para o resto da vida. Quando o indivíduo enfrentar momentos de crise, poderá reagir reativando processos psicossomáticos com os quais resolverá seus problemas passados. Spitz(12), em seu trabalho de observação de bebês no primeiro ano de vida, chamou a atenção para as reações psicossomáticas dos bebês que não recebiam os cuidados adequados nesta fase. O eczema infantil aparece como reação a um tratamento materno hostil e ansioso, sendo a depressão anaclítica e o marasmo consequências da privação materna parcial ou total. O autor conclui que os distúrbios na formação das primeiras relações objetais do bebê resultam provavelmente em grave prejuízo às relações futuras do ser na adolescência e idade adulta.
Winnicott(14), com sua larga experiência clínica e pesquisas científicas, ressalta a importância dos primeiros cuidados do bebê em sua vida futura. Ele ressalta que um desenvolvimento saudável da psique humana favorece a evolução física e que dificuldades emocionais podem gerar situações somáticas graves. Segundo a teoria psicossomática de Pierre Marty(3), o indivíduo reage a traumas conforme sua organização evolutiva mental. Cada pessoa tem uma forma peculiar de reagir e de somatizar os traumas, dependendo de sua história de vida e da bagagem genética. O ser humano é um sistema complexo de interações que pode estar em equilíbrio ou não. Um trauma externo pode ser mais desordenador para uns do que para outros, dependendo da organização interna de cada um. Quando uma pessoa sofre um trauma, há um movimento de desorganização interna que atinge primeiro as estruturas mais evoluídas, recentemente adquiridas durante o desenvolvimento. Conhecendo-se a economia psicossomática de uma pessoa, podemos prever seu modo de reação mais provável diante dos traumas e como se organiza posteriormente.
ABORDAGEM PSICOSSOMÁTICA
(1986), em levantamento com 630 adolescentes de consultório particular sobre os motivos das consultas, constatou que as queixas sociopsicossomáticas foram as mais numerosas, representando 32,69% do total. A frequência em serviços de saúde de pacientes com sintomas denominados psicossomáticos é grande. Segundo Smith(11), a incidência de problemas psicológicos entre adolescentes americanos chega a aproximadamente 25% (ansiedade, depressão, desordens alimentares e somatizações). No Brasil, Crespin
Entretanto, mesmo os sintomas que não são denominados psicossomáticos têm um conteúdo psicológico latente que quase nunca é exteriorizado e cuja compreensão é desejável para a melhora da doença. Na abordagem psicossomática buscase dar ênfase não só aos sintomas que levaram o paciente ao serviço de saúde como à compreensão do seu conteúdo latente.
Quando se identifica um componente psicológico importante que agrava a doença, o profissional de saúde encaminha o paciente a um psiquiatra ou psicólogo. Freqüentemente, entretanto, a pessoa não aceita ou finge aceitar tal orientação e não procura o psicoterapeuta. Quando o profissional de saúde dá ouvidos às questões emocionais, identifica algumas causas e permite ao paciente compreender que há sentimentos vinculados a seus sintomas, essa atitude torna mais provável a aceitação da necessidade de se submeter à psicoterapia. Esse comportamento do profissional de saúde já caracteriza a psicoterapêutica. Balint(1), em seu livro O Médico, Seu Paciente e a Doença, analisa a relação médico/paciente e constata que o remédio mais usado em medicina é o próprio médico, o qual também precisa ser conhecido em sua posologia, reações colaterais e toxicidade.
A anamnese da consulta clínica com abordagem psicossomática objetiva conhecer o máximo a respeito do paciente, da sua doença e também do ambiente em que vive. Às vezes o paciente faz relatos que, aparentemente, não têm relação com a doença, porém mais tarde se revelam extremamente importantes na compreensão de seu quadro clínico. Alguns dados que normalmente não são privilegiados na anamnese clínica tradicional devem ser valorizados na abordagem psicossomática, como os listados a seguir:
· Perguntar ao paciente o que ele acha que tem, qual a possível causa de sua doença;
· O que ele acha que faz melhorar os seus problemas;
· Que consequências em sua vida pessoal a doença tem causado;
· Investigar os vínculos mais significativos do paciente: mãe,pai,irmãos,amigos,namoradas(os);
· Perguntar sobre o cotidiano em família, na escola e comunidade em que vive;
Investigar os modelos de somatização e de desordem orgânica familiar.
A coleta desses dados e a anamnese tradicional ajudam a contextualizar melhor a doença. O paciente se torna corresponsável pelo tratamento, deixando sua postura passiva para agir ativamente na sua melhora e proporcionar um menor custo da terapia, com menos medicamentos e exames complementares.
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